Gloria Perez, um capítulo à parte nas comemorações do Mês da Mulher

ATUALIZADA EM 21/03/2024

A escritora, roteirista e produtora brasileira Gloria Perez foi a atração que o TCMRio preparou carinhosamente dentro da série de eventos em homenagem ao mês da mulher. No auditório lotado, ela participou, por cerca de duas horas, de um bate-papo descontraído, nesta quarta-feira, dia 20/03. A renomada autora de 13 novelas e de outras sete minisséries falou sobre a trajetória de vida dela, de realizações profissionais e até sobre as dificuldades enfrentadas por ser mulher.

"Minha infância foi no Acre e acho que ali foi aberta a minha primeira janela para o mundo", começou Gloria. "Foi ali que cresci, e eu tinha de adivinhar como era o mundo para além da cidade de Rio Branco, onde o horizonte era uma floresta. Vejam que tive de exercitar desde cedo a minha imaginação", prosseguiu. "Via a cidade grande por meio de revistas que chegavam em embarcações, e viajava na imaginação", lembrou.

Gloria Perez começou a trabalhar na Rede Globo em 1979. Ao longo de todos esses anos, com o poder da sua escrita e muita ousadia, esteve presente nos lares brasileiros, apresentando novas culturas, promovendo a diversidade, vencendo preconceitos e dando voz a questões éticas e sociais relevantes, sem temer as polêmicas.

Entrevistada pela servidora da Assessoria de Comunicação do TCMRio, Carolina Andrade, Gloria Perez explicou como consegue falar para um público diverso e fazer sucesso com novelas de temas tão diversificados. "Quando estou olhando para uma folha em branco, o público que eu penso é sempre esse: com culturas diferentes, visões diferentes, religiões diferentes, preconceitos diferentes. E se eu quero atingir esse público todo, eu não posso fazer uma militância para ele, mesmo que eu ache a pauta justa. Tenho que chegar até ele pelo coração, porque só o emocional manipula essas diferenças. Quando você atinge uma pessoa pelo emocional, quer dizer que ela primeiro sente, mas inevitavelmente ela vai refletir sobre o que ela pensou", explicou.

"As pessoas têm muita resistência ao que é diferente delas, ao ouvir a opinião diferente, ao ver um comportamento diferente", analisou a escritora. "A beleza do mundo está na diversidade de pessoas, de um modo de ser, de opinião. Ao dançar e conviver com isso é a melhor receita de bem-viver que existe. O conselho que eu posso dar é para que as pessoas ao menos tentem, porque certamente serão bem mais felizes se conseguirem alcançar essa dança que é a da humanidade", sugeriu Gloria. "A humanidade é diversa, e não adianta querer enxergar tudo de um mesmo jeito. Eu tento, nas minhas obras, fazer com que as pessoas enxerguem isso. E espero continuar conseguindo", projetou.

Ela também falou de alguns de seus personagens e novelas, todos marcantes, tais como Ivana, a transexual de "A força do querer"; Morena, de "Salve, Jorge"; Mel, de "O Clone"; "Explode Coração", e "Caminho das Índias", entre outras.

Gloria lembrou da amizade que mantém com a jornalista Elba Boechat, também integrante da equipe de Comunicação do TCMRio. Ela falou com carinho da profissional, por quem confessa ter gratidão.

"Fiquei grata a ela sem conhecê-la", confessou. "Porque ela foi extremamente corajosa quando enfrentou um delegado (Mauro Magalhâes). A prisão da Paula Thomaz, que hoje se chama Paula Nogueira Peixoto, se deveu à Elba", contou. "A Paula foi levada no dia seguinte à delegacia e a Elba tinha informante dentro da delegacia, que contou para ela que a Paula tinha estado lá no dia anterior, no dia do crime. E ela teria escapado se não fosse o fato de a Elba ter questionado o delegado e bancado que o jornal divulgaria no dia seguinte a 'visita' da Paula. A Elba foi muito importante nessa passagem e também muito corajosa", salientou Gloria Perez.

A secretária-geral do TCMRio, Marcia Lins, lembrou que, atualmente, o Brasil tem uma lei mais rígida que trata de crimes hediondos graças ao esforço da escritora, que teve a filha assassinada quando trabalhava numa novela escrita por Gloria Perez. "Em pouco tempo ela conseguiu o número suficiente de assinaturas para um abaixo-assinado, que introduzisse o homicídio qualificado na Lei de Crimes Hediondos", destacou Marcia Lins. Com isso, os assassinos, agora, ficam presos pouco mais de dez anos.

Gloria Perez revelou que só aceitou fazer a série para a TV, sobre o crime, com a condição de que ela se baseasse no processo. "Abri mão de todo e qualquer dinheiro originário da série. O crime foi conduzido para o sensacionalismo. E isso me levou a fazer a campanha de assinaturas para que fosse alterada a Lei. A gente tem o sentimento da injustiça quando percebe que o Estado e as leis não respondem ao sentimento de justiça que grita dentro de você. Na época, 48 horas depois do crime, o assassino já estava na rua. E, embora tenha sido preso de novo, foi por outro motivo, para a própria segurança dele. Infelizmente, atualmente, já não fica preso por tanto tempo quanto quando foi criada a Lei de Crimes Hediondos. Aos poucos, está se retirando a força dessa lei", lamentou.

A escritora finalizou o encontro destacando a importância da mulher. Com direito a um spoiler. "Mulher de 2024 é a mulher que estou procurando para fazer a minha próxima novela, embora eu pretenda descansar ao longo desse ano", antecipou. "Estamos tendo de nos reinventar diante de tantas inovações. E as mulheres também estão nessa, porque temos claramente uma ruptura comportamental: hoje, a mulher de 2024 pode tudo. Mas o que é poder tudo? O que essa mulher vai fazer com esse poder todo? Como ela vai se liberar de todas as rédeas criadas sem querer apagar a beleza e a importância do masculino?", questionou.

Na despedida, Marcia Lins agradeceu a presença de Gloria Perez e valorizou a participação dela nas comemorações do Mês da Mulher no TCMRio. "Uma pessoa que nos faz pensar e crescer. Porque o ser humano cresce quando ele aprende alguma coisa sobre temas que às vezes não necessariamente são ligados aos trabalhos, como a nossa missão, que é a de fiscalizar. A gente só faz isso melhor, se a gente aprende a lidar com a diversidade. Ninguém é bom fazendo o que faz somente com o conhecimento específico e a inteligência limitada. Você, Gloria, nos deu uma aula, mostrando situações que poderão ser refletidas até mesmo quando nós, do TCMRio, estivermos envolvidos com uma auditoria de trabalho, tratando de temas específicos. Vamos poder utilizar como um instrumento poderoso de reflexão", concluiu a secretária-geral do TCMRio.

Gloria Perez, um capítulo à parte nas comemorações do Mês da Mulher